Apresentação do livro “Contas de Cabeça” de Leonardo por Leonor Sampaio da Silva

Apresentação do livro “Contas de Cabeça” de Leonardo por Leonor Sampaio da Silva

UM LIVRO PERIGOSO

Estas Contas de cabeça chegaram ao meu email, em versão pdf, com um alerta: «Cuidado! este email poderá ter conteúdo perigoso.» Mal sabia eu que era verdade.

E era verdade porque desde que o recebi não me tenho conseguido libertar de uma interrogação muito conhecida de Theodor Adorno e que eu costumo citar aos meus alunos de cultura contemporânea, como se fosse um fóssil, uma prova de vida biológica extinta: «Como escrever um poema depois de Auschwitz?» Esta pergunta tem na sua génese não uma dúvida, mas várias certezas: a certeza da coerência entre Arte e Vida, a certeza da relação entre poesia e pathos, a certeza de que a intimidade com o mal é incompatível com a criação poética.

O problema de confiarmos nestas certezas é que não as devemos tomar como garantidas a partir de uma interrogação descontextualizada. O sentido de um enunciado nunca pode ser obtido fora do seu contexto. A pergunta de Adorno aparece num ensaio datado de 1949 intitulado “Crítica cultural e sociedade». Neste contexto, a interrogação que nos deixou tanto nos leva a pensar que o processo de desumanização acionado pela História do século XX será irreversível como a sugerir a adoção de medidas urgentes para a reinvenção pacífica da cultura europeia em tempos de pós-guerra.

Chegada a este ponto, lembrei-me de outro autor – Bertrand Russell – que, em 1962, já com 90 anos, publicava o último de uma série de livros de História, com o título sugestivo de História do Mundo (para usar nas escolas primárias de Marte). O cenário descrito pelo autor é apocalíptico. Diz Russell que, desde que Adão e Eva comeram o fruto proibido, ou seja, desde a narrativa bíblica da existência humana, a espécie mergulhou num estado de insanidade a que não foi possível pôr termo. Esta História do Mundo termina com a ilustração do cogumelo atómico e a legenda «The End».

É certo que este Contas de cabeça foi escrito antes das circunstâncias bélicas que a Europa vive atualmente e que teimam em deixar rasto no nosso quotidiano. Mas não é difícil vislumbrar nos poemas o rasto da morte. Na minha primeira leitura, sublinhei palavras como: cacos, asfixia, talho, cerco, golpes, rastilho, bélica, derrocada, fogo, clarões, peso, arder, avaria, punho, labareda, sangue, cicatrizes, pânico, dispara, cilada, máscara, cercada, farda, sufoco, expiras, mortos, alarme, assassinos, matar, narcóticos, emergência, sirenes, chagas, morrer, sedados, valas, abrigos, bichos, raízes, árvore. E, no fim, AB IMO, locução latina que significa «do mais fundo», geralmente associada ao peito ou ao coração (ab imo pectore / ab imo corde: do mais fundo do peito, do mais fundo do coração), usada para expressar franqueza, sinceridade. Neste caso, a omissão da última palavra apela a um sentido muito mais alargado deste mergulho subterrâneo ao mais fundo da vida e ao mais fundo da arte.

Mas não é só por isso que este livro é perigoso – por nos obrigar a encarar coisas a que preferíamos voltar costas e de que não nos consideramos responsáveis: a nossa mortalidade, a barbárie que nos acompanha, estejamos a queimar bruxas, a matar judeus ou a assistir à guerra em direto enquanto jantamos. É perigoso porque ele mergulha fundo nos males que alastram exteriormente a nós, como coisas terríveis e odiosas que não conseguimos controlar, e também porque aponta um mal maior, um mal primeiro, causador de todos os outros: a grande falha da vida, o desamparo, a solidão como inevitabilidade cosmogónica.

Logo no primeiro poema, vemos Deus partido «aos cacos/enquanto armava o enredo». Em tal ambiente caótico montamos «o nosso quarto de brinquedos». Repare-se que não é sequer a obra que se parte – é o próprio criador da obra que se quebra, sendo incapaz, portanto, de criar um enredo consistente; incapaz também de o alterar ou corrigir, porque tudo o que ele criou está necessariamente contaminado pela queda que começa por definir a sua própria condição.

O que é feito destes cacos quebrados? A resposta parece estar no segundo poema: levam a colisões e ao desejo, como o desejo de «devorar o fígado/ às gramáticas», imagem que nos conduz a Prometeu agrilhoado, de Ésquilo, castigado por ter pretendido roubar o fogo aos deuses para o entregar aos humanos.

Não por acaso se evoca este mito clássico, em que a humanidade é revelada como simultaneamente sofredora e capaz de grandes feitos. Ele serve, hoje como no passado, para descrever a ambivalência que nos caracteriza enquanto seres atravessados por luzes e escuridão. Na imagem da águia devoradora do fígado das gramáticas, o poeta-ave busca o alimento no próprio Criador, canibalizando-o para através do seu sangue se apropriar da palavra fundadora, da conjugação que possa recriar a queda, dizê-la melhor, porque «nem tudo foi dito/ nem tudo foi inclinado». Ainda há mais por cair – que seja o poeta a inclinar a realidade, a fazê-la implodir, dispondo o rastilho que fará saltar da boca o «espelho de detritos», «o crepitar inquieto e mineral» da terra, a mesma terra onde germina o caule que é usado por Prometeu para trazer o fogo divino.

É impossível sermos indiferentes a esta intertextualidade que liga céu e terra, titãs e mortais, através da poesia; que cruza séculos para construir uma ponte entre tempos e elementos; que unifica a chuva e o sangue no mesmo cordão simbólico vital: «afinal tudo chove/ amarrado às veias», diz o poeta, tudo chove, fertilizando palavras para que a poesia refunda um vaso novo. Mesmo que ele caia, vai cair com «cadeiras que se derramam» e «janelas que pesam», numa «claridade [ou será clarividência?] sísmica»; mesmo que ele caia – e cairá forçosamente –, cairá para que saibamos que, no mundo em que parece que nada voltará a ser potável, a poesia tem o poder de fazer germinar o «punho íngreme verde», porque «o coração afinal/ vive de caules e raízes».

No movimento descendente que se inicia com a queda e fragmentação de Deus, cada um destes pequenos poemas replica as colisões e desejos com que o poeta rediz a vida e, redizendo-a em verso, acrescenta a «súbita espessura/do que falta aqui/como acontece/ com os acidentes/ com os milagres/ com os inventários».

Estas Contas de cabeça são um desses milagres só possíveis porque o nosso desamparo é perigoso – não se acomoda com uma queda silenciosa. E, qual águia devorando fígados, recusa morrer, em tempos de morte.

Quem faz contas de cabeça costuma apresentar-se como um transtorno. Transgride as regras: ora opta por atalhos ora demora-se nos desvios. Tem a coragem de Prometeu e, na recriação a que se entrega enquanto devora gramáticas, recusa servir-se de palavras e frases regimentadas. Em vez de dizer que a roupa domingueira é um pesadelo, quem faz contas de cabeça diz: «o pesadelo que transtornava os cabides/ converteu-se em domingo»; em vez de dizer entrego-me à escrita ao ponto de me esquecer de comer e de dormir e, mesmo assim, as palavras fogem-me, diz: «na exata medida em que escrevo/desapareço/ e é onde não escrevo que as palavras/ estão»; quem faz contas de cabeça, recusa cair no conforto prosaico de afirmar: sei que a poesia não salva ninguém, que me esquecerei do que aprendo, que nunca saberei tanto quanto uma biblioteca, que nunca serei Camões ou um diseur de poesia emproado, mas não deixarei de escrever, mesmo que me sinta sempre um intruso entre versos, e, ao invés disso, diz: «não trago salvação ou consolo/nem a água se lembra de quem afoga/ não herdei as chaves de Alexandria/nem a pose épica dos náufragos/quando avistam um recital/ à cautela desvia-te/não sou daqui/ por isso nunca vou embora.» (p. 39).

E ainda bem que não vai embora. Quem faz contas de cabeça tem uma inteligência que falta às gramáticas, uma coragem raramente vista ao domingo, uma exatidão surpreendente no modo como nos indica o útero, o musgo, a matéria negra como húmus a partir do qual se fecundará uma nova vida.

Portanto, é possível que, depois da Inquisição, a poesia saiba a cinzas; é possível que, depois de Auschwitz, todos os poemas tenham cheiro a gás; é possível que, depois da pandemia, um verso cheire a desinfetante; e que, depois de 2022, nos falte o chão, a água, o ar. É possível que a poesia seja como, na História do Mundo que Russell escreveu, um manual para ensino em Marte, porque a vida na Terra desapareceu num cogumelo atómico.

Mas enquanto houver vida apesar da Inquisição, enquanto houver vida apesar de Auschwitz, enquanto houver vida apesar da pandemia e enquanto houver vida apesar da guerra, haverá poesia e ela fará diferença no modo como respiramos.

Neste livro de Leonardo, ela faz diferença desde a capa – primeiro milagre destas Contas. Não poderia haver melhor correspondência com o miolo. A mesma matéria orgânica livre e arrojada transporta-nos para a beleza do inconformismo e mostra-nos a vegetação verdejante irrompendo do crânio fértil. A tradução intersemiótica da palavra poética em imagem comprova a força da arte, que cumpre a função de reinventar o pensamento, quiçá imaginar a paz, apesar dos mistérios da História, do erro, da queda e da morte: «o caule do enigma / cai do topo da árvore».

Estamos aqui para o apanhar.

Leonor Sampaio da Silva

21 de março de 2022

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